quarta-feira, 26 de março de 2025

BRAINSTORM - PLAGUE OF RATS (2025)

 


BRAINSTORM
PLAGUE OF RATS
Reigning Phoenix Music - Importado

O Brainstorm é uma banda do Sul da Alemanha, com 35 anos de estrada, e que contabiliza na sua discografia, quatorze álbuns de estúdio. É uma das bandas mais tradicionais do Power/Heavy Metal germânico, e desde o seu início, se mantém fiel ao estilo, muito por conta da sua estável formação.

Em “Plague Of Rats”, a sonoridade retorna ao que o Brainstorm fez de melhor nos anos noventa: Power Metal com tons épicos. Após a tradicional “Intro”, “Beyond The Enemy Lines”, vem rápida e galopante, abrindo os trabalhos para o deleite de qualquer fã do estilo e dos alemães. “Garuda (The Eater Of Snakes)” é mais cadenciada, com belos riffs e refrão à la Accept.

“False Memories” retoma a velocidade, com destaque para a bateria de Dieter Bernert, rápida e precisa, enquanto o vocal Andy B. Franck demonstra grande poder de interpretação. Aliás a entonação de Andy é um destaque durante todo o álbum, como de costume. “The Shepherd Girl” retorna a cadência, envolta em melodias indianas. Esta inclusive ganhou um belo vídeo promocional.

“Your Soul That Lingers in Me” apresenta um interessante dueto vocal de Andy B. Franck com a vocalista do Leave´s Eyes/Angel Nation, Elina Siirala. ”Masquerade Conspiracy” é puro metal tradicional, rápida e com ótimos riffs, “From Hell” segue veloz e apresenta outro dueto, desta vez com Alex Krull, também do Leave´s Eyes e Atrocity. Apesar de enriquecer a composição com seu vocal mais sujo, “From Hell” me parece uma faixa mais fraca e comum, com relação as demais do álbum. “Dark Night” é mais marcada e cadenciada também, com ótimas melodias. ”Crawling” e “Celebrate Youth” (esta com excelente letra) mantém o nível, enquanto “Curtains Falls” que finaliza a audição, tem trabalho irrepreensível dos guitarristas Torsten Ihlenfeld e Milan Loncaric, tanto nos solos como riffs e o tradicional refrão “cante junto” faz esta faixa ficar na sua cabeça.

“Plague Of Rats“ é um trabalho que agradará totalmente os fãs do Brainstorm e de Power Metal em geral, e ao mesmo tempo dá sequência de forma digna e em alto nível à carreira desta já longeva banda.

José Henrique Godoy




LORDI - LIMITED DEADITION (2025)

 


LORDI
LIMITED DEADITION
Reigning Phoenix Music - Internacional 


O Lordi sempre soube transformar o horror em um espetáculo visual e sonoro, e com “Limited Deadition”, seu 19º álbum de estúdio, a banda finlandesa foi muito além. O disco homenageia o universo dos brinquedos dos anos 1980, mesclando sua sonoridade pesada e teatral com referência dessa época, mantendo a essência do grupo, ao mesmo tempo que aposta em uma abordagem conceitual bem específica - Essa nostalgia se traduz tanto na sonoridade quanto nas interlúdios que pontuam o álbum, simulando vinhetas e comerciais de TV.

Com um total de 16 faixas, o ouvinte tem uma experiência imersiva que lembra a programação televisiva dos anos 80. Porém, temos “o bem e o mal”, pois, te traz uma experiência única, ao mesmo tempo, que tantas “quebras” (5 interlúdios) tire o fator de impacto na audição. O disco começa com "SCG XIX The Hexecutioners", uma introdução macabra que prepara o terreno para "Legends Are Made of Clichés", uma faixa vibrante que combina elementos clássicos do hard rock oitentista com riffs bem construídos e teclados atmosféricos - aliás, o Lordi tem uma única proposta, brincar com os clichês do terror e do próprio heavy metal.

"Syntax Terror", tem sintetizadores futuristas e uma pegada mais agressiva nos vocais, algo novo no castelo assombrado Lordi. Em "Skelephant in the Room", a banda explora uma sonoridade mais voltada ao AOR, com um solo de guitarra que poderia facilmente ser trilha sonora de algum desenho ou filme. "Killharmonic Orchestra" leva a banda mais próxima do heavy metal tradicional, com riffs afiados, bastante punch e um baixo pulsante.

Em todo trabalho dos finlandeses temos uma balada emocional, e, em “Limited Deadition”, "Collectable" tem esse papel. A música carrega em si um lado bem teatral, algo que nos faz pensar em quanto Alice Cooper é uma influência para Mr. Lordi — o piano inicial melancólico e um refrão grandioso são de tirar lágrimas.A parte final do álbum inclui "Retropolis", que traz guitarras pesadas e vocais expressivos, além da faixa-título, que equilibra peso e melodias grudentas, parte desde sempre da magia do grupo. O encerramento se dá com "You Might Be Deceased" e o seu rock ‘n’ roll mais sujo e direito, com backing vocals reforçando o caráter teatral do disco.

Lordi constriu um álbum que não apenas soa como uma homenagem aos anos 80, mas que também transporta o ouvinte para tal época. O uso de sintetizadores, riffs característicos e a produção cuidadosamente nostálgica dão vida à proposta da banda - “Limited Deadition” entrega faixas memoráveis e reforça a identidade divertida e criatividade do grupo.

William Ribas



terça-feira, 25 de março de 2025

MARKO HIETALA - ROSES FROM THE DEEP (2025)

 



MARKO HIETALA
ROSES FROM THE DEEP
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Se há uma palavra que define “Roses from the Deep”, essa palavra é versatilidade. O finlandês Marko Hietala, mundialmente conhecido por sua passagem pelo Nightwish, entrega um trabalho diversificado, repleto de momentos únicos, emoções intensas e uma rica variedade de sentimentos. É um álbum que surpreenderá aqueles dispostos a sair da zona de conforto e não olhar o livro somente pela capa.

Desde a primeira audição, fica claro que este é um disco guiado pelas guitarras. Para onde quer que se olhe, riffs. Alguns pesados, outros mais lentos e carregados, mas sempre conduzidos por refrãos marcantes. A sensação é como se o Black Sabbath caminhasse pelo vale das sombras ao lado do Avantasia - um encontro de mundos distintos, costurado por melodias cativantes, peso instrumental e orquestrações grandiosas.

Naturalmente, as comparações com sua antiga banda são inevitáveis, e muitos fãs procurarão ecos do Nightwish. No entanto, a única conexão direta com o grupo se dá na participação especial de Tarja Turunen em "Left on Mars", onde ambos entregam um dueto memorável.

O álbum começa de forma cinematográfica com “Frankenstein’s Wife”, uma faixa épica, cheia de camadas, que soa como uma verdadeira trilha sonora metálica. A imprevisibilidade é o grande trunfo, pois nunca sabemos qual será o próximo passo.

“The Dragon Must Die” transita por diversos estilos, começando com uma pegada folk metal, passando pelo heavy metal tradicional e culminando em um encerramento despojado no melhor estilo hard rock oitentista. A jornada continua com “The Devil You Know”, que remete a décadas passadas com seus fraseados de guitarra, teclados marcantes e linhas vocais que homenageiam o lendário Ian Gillan e o Deep Purple.

O ditado “menos é mais” se aplica perfeitamente a “Rebel of the North”. Simples e certeira, é um clássico rock ‘n’ roll pronto para tocar no rádio - o tipo de música que você poderia mostrar para sua mãe e ouvir: “Essa é do meu tempo, filho!”. “Impatient Zero” traz um tom mais sombrio e introspectivo. Hietala canta sobre depressão e a sensação de ser incompreendido em determinados momentos da vida, tornando essa faixa uma das mais pessoais do álbum.

E quando falamos sobre versatilidade, não estávamos exagerando. “Tammikuu”, cantada em finlandês, é pura diversão. Com uma levada dançante e um instrumental vibrante, a faixa surpreende ao explorar caminhos pouco convencionais, sem jamais perder a identidade do álbum.

O disco se encerra com a faixa-título, “Roses from the Deep”, uma canção carregada de emoção e melancolia. É o fechamento perfeito para um álbum que traduz, de forma intensa e sincera, as nuances da vida—um dos trabalhos mais expressivos e multifacetados da carreira de Marko Hietala.

Hietala ressurgiu e com ele trouxe o álbum mais surpreendente que escutei até agora em 2025.

William Ribas




RAVEN - CAN'T TAKE AWAY THE FIRE (EP) - 2025

 


RAVEN
CAN'T TAKE AWAY THE FIRE
Silver Lining Music - Importado

Cinquenta anos de carreira não é para qualquer um, e obviamente o trio inglês Raven não é qualquer banda. Formado em 1974, desde o lançamento do seu primeiro álbum em 1981, o clássico “Rock Until We Drop”, a banda dos irmãos Gallagher (não aqueles que querem ser o The Beatles) vem marcando o mundo do Heavy Metal, com álbuns clássicos que influenciaram e influenciam até hoje várias novas bandas.

E nada melhor que comemorar cinco décadas de existência com um novo lançamento, e aqui temos “Can´t Take Away The Fire”, com 5 faixas novas e faixas ao vivo, gravadas em diferentes épocas. Entre as novas, a faixa de abertura “Black and Blue” é puro Raven tradicional, onde o “headbanging” é mandatório, velocidade, peso e melodia nas doses certas. “Power Hungry” segue a mesma linha, uma “ode “ ao metal oitentista numa velocidade alucinante.

A faixa título é a terceira, mais cadenciada, num ritmo quase “AC/DC”, com riff e refrão marcantes, enquanto o batera Mike Heller mostra toda a sua habilidade em viradas e quebradas empolgantes. Em “Gimme a Lie” a velocidade volta com tudo, sem deixar de lado a melodia. Por outro lado a última faixa inédita de estúdio é arrastada, pesada e “Sabbathica”.

As faixas ao vivo são gravações de três décadas diferentes: ”The Power” em 2022, “Architects Of Fear” em 1991, E “Don´t Need Your Money” em 1984. Elas reafirmam que o grupo atravessou as décadas sem se abalar, não dando a mínima para os modismos e estilos “passageiros” , como Nu Metal e Grunge. O Raven é a prova viva que o Heavy Metal não é apenas um estilo musical, e sim um estilo de vida, independente da idade.

José Henrique Godoy



BOB MOULD - HERE WE GO CRAZY (2025)

 


BOB MOULD
HERE WE GO CRAZY
Granary Music/BMG Records

Hüsker Dü e Sugar. Se você desconhece esses dois trios seminais para a história do punk e do rock alternativo (que eu prefiro chamar apenas de rock), muito provavelmente você desconheça BOB MOULD. E isso se deve ao fato de que Mould era a mente criativa, e porque não dizer, brilhante por trás dessas duas bandas. Enquanto a primeira surgiu ni final da década de 70 e trouxe ao mundo obras definitivas do estilo, culminando no ótimo "Candy Apple Gray" (1986) e no excelente e perfeito "Warehouse: Songs and Stories" (1987), a segunda surgiu logo depois da separação e de uma pequena carreira solo do artista, onde também deixou dois excelentes álbuns "Cooper Blue" (1992) e "File Under: Easy Listening" (1994). E se por um acaso, você não é um cara radical e aprecia a boa música, pode ter certeza que HERE WE GO CRAZY vai agradá-lo em cheio. 

Próximo de completar 65 anos, o velho Bob Mould segue incansável fazendo música e nunca deixando de lado sua raízes e influências. Muito mais um influenciador do que influenciado, o guitarrista/vocalista deixa claro que seu estilo nunca mudou e não é agora que irá mudar. Trazendo consigo aquela atmosfera típica de meados dos anos 80 e início doa anos 90, o álbum é um apanhado de composições inteligentes, distintas e cheias de emoção. Não era de se esperar algo de diferente, afinal Mould pode ensinar muita gente quando o assunto é música, não é mesmo? "Here We Go Crazy" não chega a alcançar o mesmo toque emocional de um "Copper Blue" ou mesmo de "Warehouse", mas a pergunta é: isso é necessário? O fato de ainda termos um senhor nessa idade, compondo, tocando e gravando já não deveria nos deixar satisfeitos? A resposta é sim. Todavia, também é necessário afirmar aqui que o álbum se sustenta pela sua qualidade e emoção, mostrando que o músico ainda tem (e sempre terá) relevância no cenário.

Guitarras por vezes sujas, afinações mais baixas, mudanças de andamento e aquela voz quase anasalada de Mould são o norte deste trabalho, assim, como todos dos quais participou. Composições como a faixa título, que abre o álbum com um clima quase intimista, mas com a personalidade do vocalista/guitarrista intacta, comprovam o jeito "Mould de fazer música" com uma melodia "noise" digna de nota. "Neanderthal" tem aquela veia Hüsker Dü, intensa e cheia de guitarras, que se encaixam nos vocais como uma luva. Ótimo momento e um dos mais inspirados do álbum. "Breathing Room", uma música que traz um pouco de referência dos seus contemporâneos do Sonic Youth, (e que também serviu de inspiração para bandas como o Nirvana) antecede "Hard to Get", dona de uma pegada simples e eficiente, enquanto seu refrão fica por algumas horas na sua cabeça ao término de sua execução. "When Your Heart is Broken" poderia tranquilamente integrara a trilha sonora de "Singles" (1992 e que saiu por aqui como "Vida de Solteiro"), pois tem identificação com aquele período e cena.

Temos uma mistura perfeita entre Hüsker Dü e Sugar em "Fur Mink Augurs", um rockão clássico, cheio de energia e com aquela cara de adolescência que parece não ter ficado pra trás. Já em "Lost or Stolen", temos uma composição introspectiva, acústica, com uma interpretação correta de Mould e linhas de violão bem interessantes. "Sharp Little Pieces" traz a sujeira das guitarras de volta, mas com uma atmosfera mas densa, buscando um pouco de reflexão sobre relacionamentos que acabam sem razão aparente. Algo bastante peculiar ao lirismo sempre abordado pelo artista, buscando respostas e apontando caminhos. Ao contrário, "You Need to Shine" joga a energia lá pra cima, com uma pegada típica enquanto "Thread So Thin", seria aquilo que chamaríamos de balada. Pra fechar este belo trabalho, "Your Side", outro momento acústico, novamente introspectiva, intimista e que nos deixa com a sensação que o velho músico ainda tem muito a dizer, principalmente pela energia dispensada à composição em sua segunda metade.

BOB MOULD não precisa provar nada à ninguém. E acredito que, a essa altura do campeonato, ninguém queira algo assim. No entanto, o artista mostra que ainda tem muita lenha pra queimar, nos entregando belas composições que não lhe deixam fugir do seu passado/presente/futuro. HERE WE GO CRAZY é um álbum para apreciadores da boa música e que sabem reconhecer p talento quando estão diante de um. Longa vida à BOB MOULD!

Sergiomar Menezes