SOULFLY
ARCHANGEL
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional
ARCHANGEL
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional
Maximiliano Cavalera é um dos heróis brasileiros. Eu já escrevi algumas resenhas sobre trabalhos de Max e sempre falarei sobre sua importância. Ele, junto ao Sepultura, colocou o Brasil no mapa do mundo. Houve uma época em que o universo conhecia nosso país por causa de Pelé e pela brutalidade de Max e sua ex-banda.
Dito tudo isso, vamos para a resenha de mais um ótimo relançamento da Shinigami Records.
Há uma certa mística que envolve o décimo capítulo de qualquer discografia. É o marco da sobrevivência, da persistência e, no caso do nosso Cavalera, da consagração de um estilo de vida. Archangel mostra que o Soulfly continua na sua concisão brutal. Se trabalhos anteriores eram viagens panorâmicas, este é um ataque cirúrgico: curto, impregnado de uma aura bíblica e violenta. Com pouco mais de meia hora de duração, a obra dispensa "gorduras" sonoras. O que ouvimos é uma destilação do que a banda faz de melhor, mas acelerada e polida por uma produção que destaca a sua “urgência”.
A abertura, "We Sold Our Souls To Metal", funciona como uma verdadeira declaração de princípios — um manifesto agressivo, onde Max cospe sua lealdade ao gênero de forma fervorosa. No entanto, é quando a velocidade cede espaço ao peso arrastado que o álbum revela sua verdadeira face. Faixas como "Sodomites" trazem uma densidade sufocante, enriquecida pela participação de Todd Jones (Nails). É a sonoridade do caos do Velho Testamento traduzida em decibéis.
Instrumentalmente, o disco marca a consolidação definitiva de Zyon Cavalera nas baquetas. Longe de ser apenas "o filho do dono", Zyon impõe uma assinatura rítmica que é, ao mesmo tempo, caótica e precisa, honrando o legado percussivo da família, mas com uma pegada Death Metal. Essa base sólida permite que o guitarrista Marc Rizzo (na época, ainda o braço direito de Max) brilhe com seus solos, criando texturas geniais como em "Ishtar Rising" e na faixa-título. Já “Titans” equilibra groove e agressividade ímpares, alternando momentos de tensão e explosões rítmicas que remetem ao álbum Dark Ages (2005).
A temática abraça o misticismo e a iconografia religiosa, algo perfeitamente ilustrado pela belíssima capa de Eliran Kantor. Há uma sensação de batalha espiritual permeando o disco, culminando em momentos de colaboração familiar, como em "Mother of Dragons", onde a dinastia Cavalera se reúne para criar um hino de lealdade tribal.
Embora o álbum seja predominantemente um exercício brutal, o Soulfly mantém a sua regra com "Soulfly X", atuando como uma câmara de descompressão. Aqui, a distorção dá lugar ao violão flamenco e ao acordeão, lembrando ao ouvinte que, mesmo sob camadas de thrash/death metal, o coração da banda pulsa numa jam session.
Archangel não pede licença nem tempo excessivo do ouvinte: ele chega, entrega sua liturgia pesada e encerra o culto antes que a poeira baixe. Uma obra essencial para entender como Max consegue soar ancestral e moderno no mesmo acorde.
William Ribas


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