VIPER
TEM PARA TODO MUNDO
Wikimetal - Nacional
Em 1996, acho que podemos assim dizer, o VIPER vivia uma crise de identidade. Após a saída de Andre Matos e de dois clássicos do metal - a saber, "Soldiers of Sunrise" (1987) e "Theatre os Fate" (1989), Pit Passarel, baixista e principal compositor da banda, assumiu os vocais e banda meteu o pé em composições mais intensas e pesadas e lançou o ótimo "Evolution" (1992), um álbum mais direto e sem aqueles vocais mais agudos e melódicos. Em seguida, veio "Coma Rage" (1994), ainda mais direto, com raízes até mesmo no punk rock. Não foi um grande sucesso, mas ainda assim, trazia composições interessantes, mesmo que longe daquele Viper que ficamos acostumados a ouvir. E eis que em 96, surge "Tem Pra Todo Mundo", cantado em português, com uma pegada mais pop rock e que foi completamente ignorado, tanto pelos fãs, como pelo próprio mercado, vez que a gravadora da banda à época, Castle, faliu causando inclusive, uma parada nas atividades da banda. Muita coisa aconteceu de lá pra cá, como quem acompanha a trajetória do grupo já sabe.
Mas em 2025, a banda, ao completar 40 anos, decidiu resgatar as músicas e com o auxílio da tecnologia, usou a ferramenta de inteligência artificial MOISES para recuperar os vocais originais de Pit, além de partes instrumentais gravadas pelo guitarrista Yves Passarell e pelo baterista Renato Graccia. Felipe gravou todas as guitarras, dando à obra um caráter bem diferente – mais pesado e moderno em relação à original. Sendo assim, TEM PARA TODO MUNDO (com uma leve mudança no título), volta ao mercado através da Wikimetal. Mas se em 1996, a banda sofreu pela má divulgação, agora não foi muito diferente pois eu próprio fui ficar sabendo desse relançamento apenas hoje, mais precisamente dia 31 de janeiro de 2026.
"Dinheiro" abre o álbum com uma pegada rock n' roll, com uma melodia bem bacana. E sejamos sinceros, apesar de não ser Heavy Metal, Pit sempre foi um compositor de mão cheia, independente do estilo. E já percebemos que as guitarras adicionadas aqui fazem a diferença nesta nova edição, pois agregam mais "peso" (se você leu até aqui, entende o que estou dizendo). Na sequência, "Sábado", segue a mesma linha, com a mesma pegada rocker da faixa anterior. E aqui uma curiosidade: quando entrevistei o baterista Renato Graccia, que foi sincero e disse que desde o início foi contrário a essa mudança de direcionamento, chegamos a conclusão que se esse trabalho fosse lançado com o nome "Víbora", talvez tivesse sido recebido de forma diferente. "8 de abril", data em que a banda nasceu, é o título da próxima faixa. Com uma letra intimista e honesta, a composição se fosse um pouco mais pesada, poderia estar em "Coma Rage". A música já esteve presente na coletânea "Everybody, Everybody - The Best of Viper", lançada em 1999, mas na versão que foi gravada originalmente. Aqui, tem uma roupagem mais robusta e interessante. Cantada em inglês, "Not Ready to Get Up", também poderia estar em "Coma Rage", pois tem aquela vibração, ainda que sem o peso e "raiva" daquele trabalho. Por sua vez, "Crime na Cidade", apesar da boa ideia, se perde um pouco, fugindo daquela pegada mais rocker que vinha até aqui, aproximando-se de forma perigosa, daquele pop rock que infestava as "rádios rock" e a MTV à época.
"Quinze Anos", mais acelerada é interessante, mas comum, sem acrescentar muito ao álbum. Por sua vez, "The One You Need" tem um quê de Legião Urbana. Sim, Legião Urbana, a banda de Renato Russo e Dado Villa Lobos serviu de influência para esse trabalho, tanto que na versão original havia um cover para "Mais do Mesmo", algo que também contrariou o baterista Renato. Talvez por isso que Mayrton Bahia tenha sido escolhido para produzir o disco em 1996. Dessa vez, tal tarefa ficou sob a responsabilidade de Val Santos (que também tocou na banda e brother de longa data do grupo) e Felipe Machado, oq ue ajudou a melhorar o que temos aqui. "Alvo" é outro momento que também não acrescenta muito, e "Na Cara do Gol" começa com um samba e a gente pensa: agora fudeu! Mas, um rockão acelerado dissipa esse pensamento num dos bons momentos do trabalho. Se "Lucinha Bordon" era uma música inexpressiva em 96, aqui ela continua sua saga, apesar das guitarras e da produção, a faixa não empolga. Assim como "Um Dia", que também resgata aquela atmosfera "legiônica" desnecessária. O álbum fecha com "Tem Obrigado Para Todo Mundo", que é, literalmente, uma mensagem da banda gravada meio que na zueira no estúdio, e mesmo que não tenha nada musical, é melhor do que o cover já citado da Legião Urbana.
Confesso que nunca dei bola pra "Tem Pra todo Mundo", ainda mais em 1996. Ouvindo essa nova versão intitulada TEM PARA TODO MUNDO, percebo que existiam boas ideias no trabalho, mas não mudo minha opinião. Tivesse sido lançado como uma espécie de projeto paralelo, não soaria tão "diferente" assim. o VIPER sempre foi um dos baluartes do metal brasileiro. Obviamente, que a banda (e qualquer outra banda no mundo), tinha e tem o direito de gravar aquilo que quer sem dar satisfação pra ninguém. Mas a guinada aqui foi muito "radical". álbum não é indicado pra fã devoto do estilo, mas pode agradar aqueles que apreciam um bom disco de rock, mas que entendam a proposta do grupo naquele momento da carreira. Se eu gostei do resultado? Posso dizer que ouvindo hoje, com essa nova roupagem, o saldo é mais positivo do que negativo...
Sergiomar Menezes
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