DIMMU BORGIR
IN SORTI DIABOLI
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional
IN SORTI DIABOLI
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional
Quatro anos de silêncio separaram o estrondoso "Death Cult Armageddon" (2003) do lançamento de In Sorte Diaboli. Quando o Dimmu Borgir finalmente quebrou esse hiato em 2007, o ar não estava apenas carregado de expectativa, mas saturado de desconfiança. A banda, já acusada de "trair" o Black Metal em prol do sucesso comercial, tinha diante de si um teste de fogo. O resultado, contudo, desafiou todas as previsões: não entregaram o "circo bombástico" que os detratores aguardavam para odiar, nem a repetição de fórmulas que os fãs temiam. Entregaram, em vez disso, coerência e maturidade.
Ouvido hoje, com quase duas décadas de distanciamento, "In Sorte Diaboli" revela-se o encerramento majestoso de um ciclo — o último suspiro da "era de ouro".
Desde os primeiros segundos de "The Serpentine Offering", percebe-se uma mudança de eixo. A teatralidade excessiva cede lugar a uma abordagem mais técnica e focada na música. As orquestrações, embora presentes, não soam como adereços de pompa gratuita, mas como camadas dramáticas que expandem a narrativa. É um álbum mais sombrio, onde as guitarras de Silenoz e Galder assumem o protagonismo com riffs que oscilam entre a melodia refinada e a dissonância atmosférica. Shagrath, por sua vez, entrega uma das performances mais honestas de sua carreira. Abandonando o abuso de efeitos, ele resgata um timbre orgânico, variando entre o rasgado e grunhidos profundos, conferindo uma brutalidade quase litúrgica às letras que confrontam o cristianismo.
O álbum brilha intensamente nos detalhes. Os teclados de Mustis são a espinha dorsal da épica "The Sacrilegious Scorn" — indiscutivelmente um dos pontos altos da discografia da banda —, criando climas hipnóticos que contrastam com a agressividade de "The Sinister Awakening" e a densidade de "The Invaluable Darkness". A presença de Vortex nos vocais limpos adiciona a grandiosidade final, deixando um gosto amargo de despedida ao sabermos que essa química logo se dissolveria.
Há, claro, o eterno debate sobre Hellhammer. Para uma lenda de seu calibre, sua performance foi considerada por muitos como contida ou "funcional" demais. No entanto, ao evitar malabarismos desnecessários, ele carrega o som com uma solidez quase old school, permitindo que as composições respirem sem serem sufocadas pela percussão.
In Sorte Diaboli é um disco que exige envolvimento. Ele não se entrega fácil; é uma obra que cresce com no “andar da carruagem”. O que antes poderia parecer "polido demais" para um ouvido viciado em brutalidade crua, hoje soa como uma masterclass de composição.
Este álbum recompensa quem abandona a zona de conforto e os rótulos fáceis — prova ser muito mais do que apenas escuridão: é um rito sonoro atemporal, poderoso e essencial.
William Ribas


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