sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

DEATHGEIST - UNDERWORLD (2026)


 

DEATHGEIST
UNDERWORLD
Punishment 18/Thrash Or Death Records/ Mutilation Records - Nacional

Enquanto o Thrash Metal é frequentemente acusado de estagnar em temas bélicos e violência gratuita, o Deathgeist estilhaça esse estigma com "Underworld". O álbum prova que o estilo pode ser um veículo sofisticado para o horror cósmico, a crítica social ácida e o drama existencial. Com uma química inegável — Adriano Perfetto (Voz e Guitarra), Victor Regep (Guitarra), Mauricio Bertoni (Baixo) e Fernando Oster (Bateria) — o quarteto entrega sua obra mais ambiciosa. Não se trata apenas de uma coleção de riffs velozes, mas de uma antologia de contos macabros onde o verdadeiro terror reside nas profundezas da doentia mente humana.

Dizem que a estrada e o estúdio forjam o caráter de uma banda. A prova está aqui. A abertura com a faixa-título, "Underworld", já estabelece que o Deathgeist não é refém de clichês ou preso em seu próprio passado. A banda transcende o thrash sorrateiro para entregar uma sonoridade abrangente, uma verdadeira aula de metal germânico. É a fusão titânica de dois mundos: imagine o peso melódico de lendas como Accept e Grave Digger colidindo com a agressividade cirúrgica de Kreator e Sodom. Este é o ataque do quarto álbum dos paulistas.

Adriano não apenas canta; ele encarna o caos. Sua interpretação injeta dramaticidade em cada verso: ora com linhas rasgadas, ora com sussurros lúgubres e momentos de voz limpa, transformando cada música em um ato teatral e hipnótico. Essa versatilidade brilha no contraste entre “Mind Games” e “Destination Dust”. Enquanto a primeira seduz com uma introdução melódica carregada de feeling oitentista, a segunda escolhe a violência pura: riffs nascidos para quebrar pescoços. “Destination Dust” é um convite irrecusável ao moshpit, uma tempestade sonora feita para arrancar cabeças.

Já "The Kraken’s Wrath" se consolida como um hino Heavy Metal. É aquela faixa desenhada para bater cabeça e erguer os punhos; seu refrão de assimilação instantânea promete incendiar os shows. A "falsa calmaria" de seu encerramento, com dedilhados e linhas de baixo marcantes, prepara o terreno para "U.F.O Inc". Aqui, em meio a um instrumental denso e carregado, a banda ataca a era da desinformação, expondo as farsas que pairam nos céus.

O álbum também reserva espaço para a melancolia sombria. "Last Memories" revela a face mais emotiva do disco, abordando a tragédia devastadora do esquecimento — onde a vida se torna um filme sem desfecho e o "eu" se perde em um labirinto interior. Em contrapartida, a banda retoma a fúria com "When Darkness Falls", evocando a escola de Tom Angelripper, e fecha a trinca final com a visceralidade crua de "Into the Darkwood" e "Skinwalkers".

"Underworld" é, sem dúvida, um marco de maturidade para o Deathgeist. A banda alcançou o equilíbrio perfeito entre a agressividade necessária ao gênero e narrativas visualmente ricas. É um disco para bater cabeça, sim, mas também para encarar os monstros que vivem debaixo da cama — e, pior, aqueles que habitam dentro de nós.

O ano começa destruidor com o Deathgeist.

William Ribas




quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

EDGUY - THE SINGLES (2008/2025 - RELANÇAMENTO)

 


EDGUY
THE SINGLES
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

THE SINGLES, lançado em 2008 pelo EDGUY e relançado agora em 2025 pela parceria Shinigami Records/Nuclear Blast, não é um trabalho convencional, se assim podemos dizer. O álbum reúne faixas dos EPs "King of Fools, "Superheroes" e do single "Lavatory Love Machine", celebrando momentos icônicos da trajetória da banda. Mas ele funciona como um retrato bastante honesto da fase mais extrovertida e desinibida da banda nos anos 2000. Em vez de soar como uma coletânea burocrática, ele parece uma vitrine de tudo o que Tobias Sammet e companhia estavam dispostos a experimentar naquele período: power metal épico, hard rock melódico, humor escrachado, versões alternativas e até covers inesperados (bom, inesperados pra quem não conhece a trajetória da banda...).

Sammet (vocalista), Jens Ludwig e Dirk Sauer (guitarras), Tobias "Eggi" Exxel (baixo) e Felix Bohnke (bateria e parceria de Sammet no Avantasia), nos trazem uma coletânea não coletânea, um EP com 14 faixas(!?), um trabalho fora da curva, digamos assim. Porque temos aqui um EP, além de covers, faixas relançadas e o mais importante e sensacional de tudo: a participação de Michael Kiske na melhor faixa da carreira da banda. Se você ainda não se ligou, estou me referindo a espetacular "Judas at the Opera".

Abrindo com "Superheroes” que define o clima inicial: refrão grandioso, energia positiva e aquela sensação de “hino” que o Edguy sempre soube fazer, com refrão fácil de grudar e difícil de esquecer. A sequência vem com “Spooks in the Attic”, a faixa mais melódica e "stratovariana" já gravada pelo quinteto alemão. Já “Blessing in Disguise”, escancara o lado mais pomposo e épico da banda, que antecede o ápice logo em seguida, pois “Judas at the Opera”, a faixa que conta com a  participação de Michael Kiske, ganha ares de uma pequena ópera metálica, exagerada e irresistível para quem gosta de teatralidade. As mudanças de andamento, por vezes rápida, por outras cadenciada, as performances de Sammet e Kiske, a melodia, a descontração e a versatilidade da composição, mostram que o Edguy está, sim, fazendo falta no cenário.

Os covers ajudam a ampliar o capacidade criativa da banda e do disco. “The Spirit”, do Magnum, traz uma pegada mais clássica e contemplativa, enquanto “I’ll Cry for You”, do Europe, aproxima o Edguy de vez do hard rock melódico oitentista. Não são apenas curiosidades: eles mostram como a banda absorve influências fora do power metal sem perder identidade. O que fica ainda mais nítido e claro em “Lavatory Love Machine” o exemplo mais óbvio da junção hard rock, diversão e "descompromisso", pois traz uma atmosfera festiva enquanto a letro medo de Tobias Sammet em viajar de avião, ainda para o Brasil. E a versão acústica reforça ainda mais o espírito brincalhão da coletânea. Ainda temos músicas que estão nos EPs, mas poderiam tranquilamente estar em qualquer álbum de estúdio, como “New Age Messiah” e “Holy Water”, que resgatam o Edguy mais tradicional.

No fim das contas, THE SINGLES é um trabalho agradável, divertido, mas que não muda o mundo. E nem é essa a intenção da banda. Para um álbum que junta material tão diverso, ele funciona como um mosaico da identidade múltipla do EDGUY: ora tradicional, ora debochada, ora grandiosa, ora simplesmente divertida. Para fãs, é um documento essencial; para curiosos, uma forma leve e variada de entender por que o grupo marcou tanto o power metal (ou metal melódico) moderno.

Sergiomar Menezes






segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

TREAT - THE WILD CARD (2025)



TREAT
THE WILD CARD
Shinigami Records/Frontiers Music srl - Nacional

Sempre me pergunto o que será que existe na água da Suécia? Pois por décadas, o país nos entrega uma vasta quantidade de excelentes bandas de Rock e Metal em todas as suas vertentes, sendo do mais brutal Death Metal até o mais melódico Hard Rock. E nesta segunda vertente, um dos maiores e melhores expoentes é o Treat!

Com mais de quarenta anos de carreira, a banda de Estocolmo chega ao seu décimo álbum com a mesma maestria e categoria que do início da carreira. Lembro que quando o álbum de estréia “Scratch And Bite” foi lançado em 1985, em sua edição nacional, ele foi muito elogiado inclusive pelo pessoal mais “carrancudo” do metal brasileiro. E agora, “The Wild Card” chega também ao mercado nacional, através da Shinigami Records.

Mas vamos ao que interessa que é o álbum propriamente dito: primeiramente, é aquela sonoridade Melodic Rock/Hard Rock/AOR característica do Treat e que muitas bandas tentam emular nem sempre com a mesma qualidade. Contando com os membros originais Robert Ernlund (vocais) e Anders Wikström (guitarras) a formação é a mesma dos últimos dois álbuns Nalle Pahlsson (baixo), Patrick Apelgren (teclados) e o baterista Jamie Borger.

Desde a abertura com a mais que empolgante “Out With A Bang”, passando por faixas nostálgicas como “1985” (título auto explicativo) e “Back To The Future”, a poderosa “Night Brigade”, apenas para citar algumas faixas, o resultado é um álbum forte, coeso e cheio de feeling, técnica e paixão, por músicos que são mestres no estilo. Entrou fácil na minha lista de “Melhores do Ano”. Se você não tem certeza, corra atrás de sua cópia e vejo por si mesmo.

José Henrique Godoy







BANGALORE CHOIR - RAPID FIRE SUCESSION - ON TARGET PART II (2025)



BANGALORE CHOIR
RAPID FIRE SUCESSION - ON TARGET PART II
BraveWords Records - Importado

David Reece foi apresentado ao mundo numa missão dificílima para ele: substituir a voz e a cara do Accept, Udo Dirkschneider, no momento de divisão da banda, onde o baixinho Udo queria seguir o som clássico da banda alemã, enquanto o Accept seguiria um lado mais acessível, visando entrar de vez no mercado norte-americano e aproximando seu som mais do que rolava na segunda metade da década de oitenta.

Reece gravou apenas o ótimo “Eat The Heat” em 1989 e após o fracasso na tentativa de “americanizar” o Accept, os alemães desbandaram e restou a David Reece iniciar do zero, e assim ele o fez. Cercou-se de ótimos músicos da cena americana do Hard Rock e formou o Bangalore Choir em 1991. Em 1992, é então lançado o álbum de estréia da banda, “On Target”. O álbum é excelente com composições inclusive de músicos como Jon Bon Jovi e Aldo Nova, porém com as famigeradas mudanças de mercado e interesses do público, as vendas do álbum naufragaram e a banda se separou. Porém deixou  em ”On Target”, uma verdadeira pérola e um clássico cultuado entre os fãs do estilo.

Pois David Reece reformulou o Bangalore Choir em 2011, lançou alguns novos trabalhos e agora chegamos a este novíssimo “Rapid Fire Sucession : On Target Part II”. “On Target Part II” pode ser um título pretensioso, arriscado e perigoso, pois pode gerar expectativas e comparações que poderiam diminuir a qualidade do trabalho, mas com certeza, não é o caso aqui.

Com 16 faixas, divididas em dois atos, o (des)compromisso de David Reece e comparsas é apenas celebrar o bom e velho Hard & Heavy dos bons tempos, e conseguem com maestria. Na abertura do “Primeiro Ato” temos a poderosa “How Does it Feel” e a festeira “Driver´s Seat”. Riffs potentes se entrelaçam com vocais e backing vocals cheio de harmonias. “Bullet Train“ e “ I'm Headed For” são as mais ”metalizadas” desta primeira parte.

A segunda parte vem mais como uma colcha de retalhos de influências, porém sem perder a qualidade. Temos a “Van-Halesca” “Swimming With The Shark”, enquanto “The Light” mostra influências de Southern Rock. “Sail On” é um ótimo AOR e “Mending Fences” fecha o trabalho com os dois pés fincados no Blues. Apesar desta variação, o trabalho segue muito coeso.

Com “Rapid Fire Sucession : On Target Part II”, o Bangalore Choir nos mostra como fazer um grande trabalho. Mesmo fazendo o simples e o esperado: Hard Rock e Heavy Metal produzidos com sentimento inspiração e sinceridade.

José Henrique Godoy




EDGUY - ROCKET RIDE (2006/2025 - RELANÇAMENTO)

 


EDGUY
ROCKET RIDE
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

ROCKET RIDE, lançado em 2006, é considerado um dos trabalhos mais polêmicos da trajetória do EDGUY. Até aquele momento, a banda liderada por Tobias Sammet era reconhecida como uma das forças mais respeitadas do power metal europeu, mas decidiu adicionar novos elementos à sua sonoridade, algo que já veio sendo incorporado desde "Hellfire Club" (2004). O álbum não é apenas uma sequência simples de seu antecessor pois atua como uma espécie de liberdade criativa, mesmo que isso tenha deixado parte de sua base de fãs mais radical um tanto quanto indignada. O trabalho traz uma abordagem deliberadamente "fora da caixa", apesar de ainda haver elementos marcantes de power metal — principalmente nas estruturas épicas e na presença constante de melodias grandiosas. No entanto, seu relançamento, que chega por aqui pela parceria Shinigami Records/Nuclear Blast, volta sua atenção  para um hard rock melódico, com referências explícitas ao AOR, rock dos anos 80 e até abordagens quase pop.

O já citado Tobias Sammet, ao lado de seus sempre fiéis companheiros Jens Ludwig e Dirk Sauer (guitarras), Tobias "Eggi" Exxel (baixo) e Felix Bohnke (bateria) trazem um ábum que foi gravado, produzido, mixado e masterizado por Sascha Paeth, o que garante uma sonoridade cristalina e moderna. Tudo soa grande, polido e acessível, deixando claro que o trabalho, apesar de mostrar uma sequência e evolução (algo constante na carreira do quinteto alemão), ainda mantém algumas características que consolidaram a carreira da banda: melodias, refrãos fáceis de gravar e muita qualidade em suas composições. 

Um contraste significativo dentro do próprio álbum. Essa talvez seja uma frase que defina bem o que temos aqui, afinal músicas como "Sacrifice", "Return to the Tribe" e "The Asylum" mantém as características habituais do Edguy: estruturas extensas e épicas, refrãos e corais majestosos, uso expressivo da voz melódica de Sammet, ou seja, garantem a pegada característica do power metal europeu, em especial, o alemão. Em contrapartida, o álbum aposta muito em linhas mais básicas e claras, estruturas mais comerciais e uma postura mais descontraída e até mesmo, cômica, a começar pela capa. "Rocket Ride", "Superheroes", "Save Me" e, principalmente, "Trinidad" são exemplos mais que evidentes disso. Esta última, ao combinar rock com elementos tropicais e uma irreverência quase paródica, chega a beirar o caricatural. Para alguns, isso representa ousadia criativa. Para outros, descaracterização. Mas a "cereja do bolo", vem em "Fucking with Fire (Hair Force One)". Se em "Lavatory Love Machine", lançado no álbum anterior, o Edguy flertou com o Hard Rock anos 80, aqui a coisa ganhou uma maior proporção, juntando todos os elementos do estilo.

ROCKET RIDE não é um álbum que se mantém em uma zona de conforto. Pelo contrário. Ele não tenta agradar a todos — e por isso mesmo permanece relevante quase vinte anos depois. Não é o trabalho mais coeso do EDGUY, tampouco o mais pesado, mas talvez seja o mais honesto enquanto "personalidade": uma banda experiente, cansada de fórmulas, experimentando sem medo de errar. Para quem aceita essa proposta, o disco entrega momentos de grande bastante interessantes e divertidos, ainda que intercalados por escolhas que nem sempre agradam aqueles fãs mais puristas.

Sergiomar Menezes