sexta-feira, 15 de setembro de 2023

REBEL ROCK RESEARCH - NEVERMORE




Por Uillian Vargas
Revisão: Gregory Weiss Costa

“Nunca Mais”: impossível pensar nessas palavras e desassociá-las ao poeta que as eternizou no mundo físico. Teria Edgar Alan Poe, com seu poema “O Corvo”, influenciado no batismo da banda composta por Warrel Dane (vocal e letras), Jeff Loomis (guitarra), Jim Sheppard (baixo), Van Williams (bateria)? Bom, quem poderia nos confirmar essa história, não está mais entre nós. Warrel Dane, infelizmente, faleceu em 13 de dezembro de 2017 abrindo uma fenda no estilo que jamais será preenchida. Warrel Dane, nos faz falta!

O ano era 1992, alguns jovens, descontentes com direcionamento da antiga banda, saem da formação da Sanctuary (Dane e Sheppard) para formar a Nevermore. O local, Seatle. O mundo estava iniciando uma ressaca, embebida nas pesarosas melodias do grunge. Principalmente em nessa cidade em específico, o berço do estilo. O Nevermore, então, surge como um fôlego para os metalheads, que ansiavam por novidades. Além de contundentes composições, melodias groovadas, jogando escatologias “aos quatro ventos” com as ácidas letras, a banda vinha escudada por dois destaques incríveis em suas eras. Uma delas é o Jeff Loomis (hoje no Arch Enemy), um dos guitarristas mais incríveis que o metal já revelou. Junto à técnica, dinamismo e ousadia sustentada por ele, chega o farol da (in)sanidade chamado Warrel Dane com suas composições e seu vocal super característico. Discorrer sobre Nevermore, é discorrer sobre Dane, então, não há como fugir da homenagem ao grande artista que partiu cedo demais. Warrel Dane faz muita falta. A banda surge em um movimento muito inovador dentro da própria realidade. Musicando sobre política, filosofia e misantropia, aos ouvidos mais recém-chegados, o som pode não agradar. Usualmente gênios, são mal compreendidos em um primeiro momento. Mas insista, e, assim que o ouvido acostumar, não restará espaço algum para arrependimento.

Em uma escala evolutiva, baseada no gosto deste que vos escreve, abaixo será organizada e comentada discografia do Nevermore, desde o disco menos interessante até o topo do pódio! Evidentemente não será uma tarefa muito fácil, já que a carreira da banda é calcada no dinamismo e na pluralidade sonora. Lembrando: falarei somente dos full-length. EPS, coletâneas e lives, não serão comentados.


The Politics of Ecstasy – 1996 
“Mesmo que um copo d’água baste ao sedento, o rio se oferece todo, por isso ele canta.”
Rabindranath Tagore

 
Na última posição, o segundo lançamento da banda. Um play que provocou opiniões diversas em sua estreia. Os fãs, órfãos com o fim da Sanctuary, e cheios de esperança em razão do debut, foram traídos pela alta expectativa. O disco que tinha tudo para ser um rio cantante, não foi muito além do que o copo d’agua que saciou. Matou a sede sim, mas não foi possível ouvir o rio cantar. A rotulação de groove metal progressivo, nunca foi tão bem aplicada, como neste full. Jeff Loomis esbanja técnica, criatividade, riffs impactantes com pegada futurística em algumas passagens. De um modo geral, definir o The Politics of Ecstasy em poucas palavras, não é uma tarefa muito fácil, pois ao mesmo tempo em que se percebe um excelente trabalho de convívio entre os riffs e da aplicabilidade polirítimica das guitarras. Afinal, o parceiro do Loomis aqui era Pat O’brian (que deixa o Nevermore, para assumir o posto na Cannibal Corpse). Também há aquele sentimento de que o disco, de forma geral, na sua organização hierárquica, “não vai”. Estrelinhas para Loomis (guita), Williams (batera) e Jim Sheppard que está moendo no baixo. Warrel Dane, nessas pradarias, está longe da sua melhor performance, chega a soar um tanto estranho em alguns sons. Como mencionado, causou uma boa divisão na base de fãs que estava surgindo. 

Enemies of Reality – 2003 
“Daria tudo que sei pela metade do que ignoro” 
René Descartes.


Enemies of Reality não é outra sensação, senão um fio de água muito gelada escorrendo pelas costas quentes em um dia frio. Consegue manter um ritmo interessante durante o disco, com algumas ressalvas. Abre muito bem com o som que dá nome ao álbum, o que faz criar expectativa além do que o disco merece. Mas não me julgue como um inimigo do play - na escala crescente, ele ainda é um ponto de fortalecimento na carreira da banda. Se no disco anterior Warrel Dane estava longe do seu ápice inspiracional e de performance, aqui ele está “no caminho”, mas ainda não chegou lá. Assim como disse o pai do método, “eu daria tudo que sei, pela metade da ignorância” dos pensamentos nas cabeças que conduziram o disco por essas linhas. Alguns hão de culpar a produção do disco pelo resultado. Aqui, nas mãos de ninguém mais, ninguém menos que Kelly Gray (Ex-Queensrÿche), que já havia produzido grandes nomes como Dokken, Pride and Glory e o próprio Queensrÿche. Outros, culparão a banda pelo desafio de inovar, ante a própria proposta de se introjetar pela epiderme resolutória, da alteração do estado das coisas. “Never Purify” sim, volta a fazer o ouvinte sorrir: energia, solo forte, base contagiante, ufa! Então, lá vem mais um balde de água gelada. “Tomorrow Turned into Yesterday”, “hemisfericamente” perfeita em sua doçura, até que então a audição torna-se cansativa e nada significante acontece nesse caminho, até ele desembocar na vereda chamada “I, Voyager”. Aqui chegamos ao DNA do Nevermore. Indiscutivelmente, o ponto mais alto do disco. Dentro do contexto, metodicamente, aqui Descartes sorriria.  “Noumenon”, sério? Precisa comentar? Mas aí pra encerrar o disco vem a “Seed Awakening”, tipo de som que satisfaz a maioria dos metalheads que gostam de peso, velocidade e técnica. Aqui a banda, agora quarteto formado por Dane (vocal), Loomis (guita), Sheppard (baixo) e Williams (batera), parece que usou o disco para dar um belíssimo e displicente passeio pela montanha-russa. Não é um disco descartável, obviamente, mas também não há muitos argumentos fortes para defendê-lo. Bom, daqui em diante a classificação começa a ficar complicada. Mas, vamos lá.

Nevermore – 1995 
“Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”
Proverbio Português


Voltamos a 1995, debut da banda. Disco já abre diferente, música forte, swingada e letra cativante. Afinal, de fato ninguém “vê o que o amanhã sabe”. No mínimo, questionadora. “C.B.F.” abastece a audição com sua pegada. Warrel voando baixo e se arriscando em alguns falsetes. Em suma, um disco cheio de contrapontos, quiçá o menos progressivo da carreira da banda. Elementos mais suaves dialogando com o peso impregnado e aplicado. Provavelmente ainda herança da então extinta Sanctuary. A audição mais prazerosa, inclusive, permite prestar mais atenção nas letras inteligentíssimas e cheias de atitude. O trio a seguir, impecável: “The Sanity Assassin”, “Garden Of Gray” e “Sea of Possibilities”. Aqui o provérbio Lusitano é lembrado na sua fração que remete ao mal que não perdura. Sintam o poder do vocal do Warrel Dane no som “Sea of Possibilities”. De forma coesa, o disco homônimo, é muito bem apresentado ao mundo e ao investimento criativo rendeu lucrativos frutos. Mostrou ao público uma velha formação, em um novo projeto cheio de identidade e inovação (quando essa palavra não era usada pra definir qualquer coisa). Isso coloca o disco Nevermore em um degrau estranho da classificação de gênero, pois tem riffs oriundos do thrash, tem o groove distinto e busca alguns reforços na progressividade e se abusa da velocidade do power. “Durma com esse barulho”! A genialidade estava pronunciando sua força, já tinha dado bons sinais por aqui. É claro que, com esse disco, a expectativa do segundo play, atingiu níveis estratosféricos.

Dreaming Neon Black – 1999  
“A morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitecesse e a gente nem soubesse que era o fim...”
Mario Quintana 


Chegamos, então, no trabalho que pode ser considerada a primeira grande obra da banda. O primeiro “masterpiece”. Como discorrer sobre Nevermore, não é uma tarefa simples, hão de encontrar opiniões divergentes sobre a grandiosidade de D.N.B.
 
Dane, muito impactado sentimentalmente, jogou neste disco, todo seu amargor, todo seu azedume, todo seu rancor e seus questionamentos em relação a fé, religiosidade e espiritualidade. Reza a lenda que a fagulha inspiracional para as composições, foi uma suposta namorada de Warrel Dane que o deixou e desapareceu, após integrar um culto obscuro, quiçá fundamentado pelo consumo de entorpecentes. Esse cenário deixou Warrel Dane muito fragilizado sentimentalmente e, assim sendo, jogou neste disco conceitual todas as agonias que o consumiam durante esse período. Toda obra comunica com o acervo pessoal do expectador. Sabendo disso, volte no disco e o escute mais uma vez. Tendo amado alguém, algum dia, eu aposto (e não erro) que alguma faixa vai conversar contigo depois disso. Provavelmente, não será a “I am the Dog”, que apesar de sustentar um lindo trabalho de guitarras, da dupla Loomis e Calvert (ex – Forbidden), é o som mais “sem sal” do disco. Contendo 13 faixas (por acaso?), Dreaming Neon Black fez a banda experimentar caminhos diferenciados e únicos em sua carreira. Então, não é de estranhar que, mesmo os fãs mais fiéis da banda, em algum momento, despertem opiniões contrárias à obra. E o disco vem com esse estigma em sua concepção: ele não vem para resolver, vem para questionar. Arrisco que nem mesmo Mario Quintana o desvendaria! O disco encerra com “Forever”, com 9m20s. Porém, mais de 7min em silêncio. Carga extra de drama e um testamento sonoro e mudo, em que tudo pode ser dito e nada é ouvido.

This Godless Endeavor - 2005
“Coração quebrado tem cura: A paz de não precisar mais aguardar a perfeição que não existe.”
Fernanda Young


Se durante essa revisão havia afirmado que, nos primeiros discos, Dane estava longe de atingir seu ápice, agora o cenário mudou drasticamente. No This Godless Endeavour o vocal está voando num rasante de ave de rapina. O tempo decorrido e a intensidade emocional presentes no vocal, transformam o disco em uma obra que merece muito destaque na discografia. A volta do peso e velocidade, associados à originalidade, que só Nevermore conseguiu sustentar, são muito sensíveis na audição. Quer uma prova? Nem precisa, pois, a primeira música do disco já vai entregar de bandeja. Além do peso e da velocidade, quem está dando as caras novamente como protagonista, é a progressividade. Vocês perceberão músicas mais longas, com cargas emotivas e intros lúdicas. A exemplo de “Sentient 6”, que começa com um dramático piano e ao longo dos seus quase 7 minutos transforma-se drasticamente. Neste disco, quem faz parceria para Loomis é o ex-Testament Steve Smyth, o qual inclusive ajudou na composição de “Bittersweet Feast”. Na instrumental, “The Holocaust of Thought”, quem balança as cordas é o guita James Murphy (ex-Cancer, ex-Death entre outros). Destaque especial para a faixa que batiza e encerra o disco. Uma verdadeira odisseia encantadora, um singelo passeio pelo olho do furacão, um breve e eterno relacionamento com a insanidade. O terceiro lugar do pódio, pertence a uma obra que o Nevermore, nunca conseguiu superar. E sim, perfeição existe e o Warrel Dane continua fazendo falta!


The Obsidian Conspiracy – 2010 
“Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado.”
James Baldwin


Mudanças nunca foram problemas para Nevermore. Depois de cinco longos anos sem lançar nada, a banda revela The Obsidian Conspiracy, agora de volta ao quarteto original: Sheppard, Dane, Williams e Loomis. Prezando pelo peso, músicas relativamente menores dos que as presentes no trabalho anterior. Como esperado, mais uma vez o vocalista supera expectativas em relação a sua performance, com letras cada vez mais contundentes. “Moonrise” é sensacional, vai te fazer bater o pé com a groovada das guitas. Aqui, quem sabe, o melhor trabalho de mixagem da bateria de Williams, que está marcante demais.
 
“And I will say once more, The world is still a spinning ball of confusion That no one understands...”
 (E vou dizer mais uma vez, O mundo continua a sendo uma bola giratória de confusão, Que ninguém entende...)
- Emptiness Unobstructed

Nas palavras do rei louco, toda verdade que nos conduz ao caos diário. Sonoridade diversificada, melodias rápidas contrapondo com músicas mais baladas e um grande compendio de composições magistrais, sob a produção de Peter Wichers (ex-Soilwork). Sabe o que é mais estranho? Dificilmente esse álbum vai superar o This Godless Endevour, algum dia. Mas a audição é mais digerível, então na somatória, ouvi mais o Odsidian do que o Godless. Em um perfeito equilíbrio, praticamente todas as músicas deste disco destacam-se, com algum elemento. Enfrentar o retorno ao quarteto, uma só guitarra, trouxe esse excelente resultado. O último trabalho da banda, chega nessa construção, no segundo degrau do pódio. 

Dead Heart in a Dead World – 2000 
“Uma obra de arte deve levar um homem a reagir, sentir sua força, começar a criar também, mesmo que só na imaginação.”
Pablo Picasso



Na virada do século, no dia 13 de setembro de 2000, - para ser exato, 23 anos separam o lançamento desse disco e da escrita dessa análise, - o Nevermore, cronologicamente, revela sua segunda maior obra, que neste texto será a suprema. Loomis então assume o carvalho com 7 cordas e a sonoridade da banda ganha peso inédito na carreira. Se até Dead Heart in a Dead World, a tentativa de colocar o Nevermore “em uma caixinha” já era complicado, a partir deste play, as coisas só ficariam mais difíceis. Dead Heart é um disco que traz elementos de Thrash, Power, groove, pitadas de Death e progressivo. Nevermore, talvez não seja uma banda que agrada a todos, mas certamente tem algo para te dizer. Com esse disco, a banda oficializa o flerte aberto com o progressivo, composições encorpadas e com muita informação. Além de ser o álbum no topo da discografia do Nevermore, é o álbum que está entre os 10 melhores, na minha escolha geral. O disco que abre com “Narcosynthesis”, com Dane vociferando críticas sobre penas por posse de drogas e rejeição religiosa, entrega uma energia imbatível. Eis o lançamento mais sólido, da formação mais sólida da banda. Não existe a possibilidade de nomear um único destaque, porém, alguns sons são passíveis de causar sensações. A exemplo de “The River Dragon Has Come”, quando Loomis, simplesmente debocha do tempo, com sete cordas. Essa música tem um único defeito: ela acaba! Aliás, o disco todo é acometido desse “defeito”.
 
“Today the warning came in the flood, Architects and fools never cared for poor men's blood...”

“The River Dragon Has Come” é o carvalho sentimental, que há de salvar os aflitos das inundações da alma. E se a banda não conseguiu superar o This Godless Endeavour, com toda certeza, jamais conseguiu recriar nada parecido com o Dead Heart. E, surpreendemente, temos “Hello darkness, my old friend...” Sim! Há uma versão de Sound Of Silence (Simon and Garfunkell) aguardando para te surpreender, no frio da noite escura.
 
Se você não conhece Nevermore, eu diria que esse é o disco especial para conhecê-la. E afirmo, se não gostares desse disco, pode abandonar. Nem perca tempo ouvindo qualquer composição de outros trabalhos do grupo. E sim, temos um vencedor. Dead Heart in a Dead World é o trabalho maior, que merece o topo do pódio. Ao escutar o disco, dá pra entender a essência do que Pablo Picasso quis ilustrar em sua frase memorável.
 
Este texto não traz verdades absolutas e nem tem a intenção de esgotar o assunto, pois é impossível. São palavras de um fã, que espero que encontrem abrigo no pensamento de outros. Esperamos que tenham se divertido com a leitura, tanto quanto me diverti escrevendo. Nos acompanhe para ficar por dentro de outras resenhas e entrevistas. E claro, nunca esqueça: Warrel Dane, faz muita falta!

(Foto tirada 32 dias antes do falecimento de Warrel Dane)



terça-feira, 12 de setembro de 2023

TEN - SOMETHING WICKED THIS WAY COMES (2023)

 


TEN
SOMETHING WICKED THIS WAY COMES
Shinigami Records/ Frontiers Music srl

Gary Hughes, a mente por trás de toda a musicalidade do Ten, aproveitou os tempos nebulosos e incertos da pandemia para criar e recriar, e voltou a criar novamente. Neste período, compôs e produziu dois álbuns ao mesmo tempo, a saber: “Here Be The Monsters” lançado em 2022 e este novo, que vamos falar aqui neste texto, “Something Wicked This Way Comes” (2023).

Apesar de terem sido produzidos quase que sem intervalos, em hipótese alguma este álbum de 2023 soa como sobras do anterior, ao contrário, é superior ao seu antecessor. A sonoridade é o Hard Rock pomposo e cheio de classe que permeia a maior parte dos lançamentos do Ten. Músicas cheias de melodia e pesadas quando o peso se faz necessário, sem perder a imponência, talvez em alguma passagem aqui e acolá, com o nível mais abaixo das demais, impeçam que o álbum figure entre os grandes álbuns do Ten.

Gary Hughes nos vocais e produção é acompanhado aqui pelos guitarristas Dann Rosingana, Steve Grocott e John Halliwell , o baixista Steve McKenna, o tecladista Darrel Treece-Birch e o baterista Markus Kullman (Sinner, Glenn Hughes, Voodoo Circle). Essa formação teve a tarefa de conduzir as ideias de Hughes, e entregam um trabalho que atingirá positivamente os fãs da banda.

Destacando algumas faixas, como a abertura, “Look For The Rose”, com riffs melodiosos e empolgantes, a pesada “Brand New Life”, com riffs pesados escoltados pelo teclado proeminente de Darrel. “The Tidal Wave” com arpejos de teclados, juntamente a “Parabellum”, combinam muito bem o Hard Rock do Ten, com estilos mais leves como Aor/Pop Rock. Estes elementos também estão presentes na bela balada “New Found Hope”, e mais Aor também na excelente “The Only Way Out”.

Como citado anteriormente, por pouco mesmo o Ten não consegue colocar “Something Wicked This Way Comes” no “podium” dos melhores álbuns da banda, mas de qualquer forma, este novo lançamento agradará e muito fãs do grupo e dos estilos comentados aqui.

José Henrique Godoy







BURNING WICTHES – THE DARK TOWER (2023)

 


BURNING WICTHES 
THE DARK TOWER
Shinigami Records/Napalm Records

Vamos sair do lugar comum: escrever sobre o novo álbum da banda suíça Burning Witches não é uma tarefa fácil. Na realidade, existia sim a possibilidade de percorrer um caminho mais seguro e simplesmente ater minha atenção à sonoridade, à composição e à produção da quinta obra das Bruxas Suíças, entretanto, não é o que pretendo, ao menos, incidentalmente nesta resenha-crítica.

O fato é que falar sobre bandas compostas integralmente de mulheres em um universo tradicionalmente dominado por grupos formados essencialmente por homens provoca, em alguma medida, uma inquietação e uma necessidade de reflexão em virtude do contexto traçado. Afinal, não sejamos hipócritas: mas podemos imaginar quantas vezes essas garotas foram julgadas antes por suas aparências e atributos físicos em vez de serem apenas apreciadas pela arte a qual se propõem a fazer? Ora, apenas um inconsciente fã do estilo que passou a última década isolado e incomunicável em uma ilha no Pacífico poderia afirmar que sequer ouviu falar no nome desse grupo por aí. A factual realidade é que as moças vêm galgando gradativamente mais espaços desse gênero musical, tornando-se rapidamente um dos nomes mais destacáveis do estilo – aquele heavy tradicional com doses generosas de power metal – e uma das presenças mais frequentes nos maiores festivais de metal do mundo – como ocorreu recentemente no Wacken 2023.

Assim, não posso recair no buraco de apenas dizer se o álbum é bom ou não; há muito mais a se considerar. É conveniente, acima de tudo, enfatizar que a o caminho aberto por essas Bruxas até o patamar em que estão não deve ter sido uma coisa fácil. Quando surgiram, lá em 2017 em seu álbum de debut, intitulado homonimamente de “Burning Wicthes”, quando enfim chamaram a atenção da indústria, seu primeiro rótulo foi o “Judas Priest feminino”. Sim, exatamente isso! Ainda que saibamos a honraria que é ostentar uma comparação com os Metal Gods, notem que elas vivem de validação e de analogias verbais sempre correlacionadas ao viés e ao escrutínio masculino. Sim, eu sei, elas entraram em um campo de batalha forjado por nomes como Iron Maiden, Helloween e o próprio Judas Priest, mas não sejamos tolos a achar que o fato delas serem mulheres não altera as condições de produção de qualquer espécie de enunciado. Logo, é chegada a hora de entendermos e pensarmos no grupo como um grupo de heavy metal, mais uma trupe de artistas buscando a árdua tarefa do reconhecimento nesse mundo. Como se isso fosse fácil, ainda precisam lidar com as coercitivas imposições de gênero, as quais, tradicionalmente, subjugam o espaço feminino.

Logo, após essa indagação – necessária – é o momento de finalmente falar do novo álbum do quinteto suíço. Formado por Laura Guldemond (vocais), Larissa Ernst (guitarra), Romana Kalkuhl (guitarra), Jeanine Grob (baixo) e Lala Frischknecht (bateria), “The Dark Tower” foi lançado pela Napalm Records e produzido por ninguém menos que Marcel Schmier - baixista e o vocalista da lendária Destruction – e segue a linha estética dos trabalhos anteriores.

Na verdade, ainda que o disco imprima a gana e a energia de uma banda de heavy metal em plena ascensão e sedenta por apresentar o melhor que sabem fazer – e sabem mesmo, pois o grupo conta com instrumentistas de alto calibre – “The Dark Tower” não é um álbum cuja audição será memorável em muito momentos. Na maioria, na verdade.

Com uma não tão longeva carreira, as meninas possuem uma considerável e proeminente produção. Vindas de dois excelentes trabalhos - “Hexenhammer” (2018) e “The Witch of The North” (2021) – era evidente que as expectativas em um novo fruto subsequente estariam em alta. Todavia, quando entramos em uma viagem auditiva pelas 13 faixas do disco, percebe-se que espera não foi tão compensatória quanto se supunha. Como eu disse anteriormente: a energia, a vontade e a qualidade impressas pelas moças estão ali, contudo, o álbum peca na criatividade.

O disco abre com uma faixa introdutória chamada “Rise of Darkness” e, quando essa termina, “Unleash de Beast” surge e faz jus ao seu título (em livre tradução: “Liberem a Fera”), apresentando toda a ferocidade e voracidade dignas de um excelente heavy/power metal. Um dos momentos mais altos do trabalho, tanto que virou carro-chefe, conforme visto no videoclipe divulgado pelas mídias.

Na sequência, “Renegade” mantém a audição aquecida com um trabalho incrível de guitarras da dupla Larissa Ernst e Romana Kalhul, as quais vão fazer o ouvinte quebrar tudo em uma pegada oitentista do traditional heavy metal. Porém, em “Evil Witch” – embora conte com um primoroso trabalho de bateria de Lala Frischknecht – já `há sinais de falta de inspiração, trazendo a clássica levada “cavalgada” como condutora, mas que, para todos efeitos, faz um bom feijão com arroz.

Entretanto, a anunciada monocórdia aparece na faixa seguinte: “World On Fire”. Vemos aqui o clássico caso da excelência acomodada a qual ficou em terreno seguro e inerte. Os vocais de Laura no pre-chorus e no próprio refrão, assim como as linhas de guitarras, soam desinteressantes e desinteressadas. Os clichês são jogados aleatoriamente ao longo da faixa sem uma visível clareza de objetivo. Para ouvidos mais atentos e treinados no estilo, é o típico caso da faixa a qual se escuta os primeiros minutos e se pula antes de terminar.

A próxima música é a balada “Tomorrow”, em que vemos a versatilidade vocal de Laura Guldemond em um ritmo menos acelerado e energético. Funciona bem ao contexto geral de “The Dark Tower”, mas também não se trata de um momento tão relevante da audição. A próxima, “House of Blood” é feita com efeitos sonoros atmosféricos (portas rangendo, caixinha de música, risadas e gritos de lamúria) servindo como ponte para a faixa nome do título: “The Dark Tower”. Essa começa com os tambores de Lala rompendo o clima, dando a impressão que estamos sendo introduzidos a um mundo sombrio de um bom filme de terror. A letra da composição também aposta nisso, com alusões diabólicas e à rituais macabros. Porém, não demora muito para a adrenalina cair e estarmos preso em mais um roteiro monótono e previsível. Seguindo a analogia do cinema, é o caso em que o cartaz é melhor do que o próprio filme.
Então, quando você começa a perder o ânimo, as meninas lançam “Heart of Ice”, nona e talvez melhor faixa. Os vocais de Laura atingem um tom emocional que condizem com o refrão melancólico que lamenta “estar perdida em um coração de gelo” e o duo de guitarras de Romana e Larissa tematizam esplendidamente o desconsolo, alterando em solos cheios de sensibilidade e riffs poderosos. Aliás, os solos dessa música podem ser, indubitavelmente, expostos orgulhosamente na galeria de preciosidades das Bruxas Suíças. Perfeitos no sentido estrito da palavra.

Depois do provável ápice da obra, somos arremessados novamente ao marasmo nas próximas quatro canções conseguintes. Sem grandes arroubos adjetivos ou predicativos, serei prático – para não dizer “taxativo” – ao mencioná-las na sequência. Assim, “Arrow of Time” é chata e sem graça, possivelmente sendo prejudicada por vir depois de “Heart of Ice”. “Doomed to Die” é pretenciosa e forçada em certas passagens, mas o refrão e os solos salvam. “Into de Unknown” é a expressão do cansaço criativo do grupo, arrastando-se em riffs previsíveis e cadência senso comum. Por fim, “The Lost Souls”, última faixa do álbum, é literalmente a tentativa final em dar conseguir mais um fôlego para uma estratégica retirada de cena. A música é um tanto desorganizada, joga em variâncias rítmicas e sonoras, momentos menos e mais cadenciados, solos que alternam de velocidades... até um derradeiro final desestruturado, simbolicamente performado por um grito de uma mulher – uma bruxa(?) – agonizando ou morrendo. Agourento, não?

O álbum ainda traz de presente duas faixas extras como bônus. E podem ficar calmos: são os covers de “Shot In The Dark” do Ozzy Osbourne e “I Wanna Be Somebody” do WASP, feitas com a excelência técnica e interpretativa das moças.

“The Dark Tower” é um trabalho que talvez não elabore o melhor significante do que a Burning Witches pode fazer. Tem pontos altos, mas permanece em uma linha constante e mediana que não empolga como deveria. Como disse ao início desse texto, busquei analisar o grupo pela sua arte, sem nenhum julgamento ou desconsideração relativas a discursos construídos de gênero como muitos fazem, ou evitam ou não sabem como conduzir. Por fim, vamos esperar o próximo degrau a ser alcançado por essa crescente banda, contando, certamente, com o momento em que suas identidades artísticas irão sobrepor quaisquer apontamentos genéricos e insensatos que tantas mulheres no mundo do heavy metal precisam enfrentar corriqueiramente.

Gregory Weiss Costa




quarta-feira, 6 de setembro de 2023

PRIMAL FEAR - CODE RED (2023)



PRIMAL FEAR
CODE RED
Atomic Fire / Shinigami Records

Quem acompanha a cena Power Metal alemã sabe do tamanho e da relevância do Primal Fear para a cena não só daquele país, como do Heavy Metal como um todo. O tempo passou, Ralf Scheepers parece ter definitivamente superado a sua não bem sucedida audição para entrar no Judas Priest, Mat Sinner segue com sua banda solo e comandando o Primal Fear com mãos de ferro há quase 30 anos, enfim tratamos aqui do novo lançamento de um gigante de Metal mundial.

Formalidades a parte vamos ao que interessa: que disco excepcional temos aqui senhores! Analisando friamente os trabalhos mais recentes, “Apocalypse” (2018) foi onde a banda tirou um pouco (ou muito!) o pé do acelerador, o que já foi um pouco alterado em “Metal Commando” (2020), e aqui a banda parece voltar aos seus melhores dias e lança um álbum que fará a alegria de seus fãs mais antigos e ávidos por aquilo que os caras fazem de melhor: refrãos épicos, riffs poderosos onde podemos sim perceber aqui e ali, as 3 guitarras que formam o line up do Primal Fear já há algum tempo.

“Another Hero” abre o trabalho como uma banda tipicamente Heavy Metal e em “Bring the Noise” temos um destaque absoluto: refrão espetacular, lindos solos e riffs e uma cozinha que faz o arroz com feijão. Que refrão meus amigos! Em “Deep in the Night” chama a atenção a linha de baixo feroz de Mat Sinner o que não chega a ser novidade nenhuma em sua longa discografia, e a interpretação de Scheepers faz jus a transformar essa em outro destaque do trabalho. O que dizer de “Cancel Culture”, além de que sua letra é muito (e bota muito nisso!) atual e relevante para os dias de hoje em que muita gente se acha no direito de querer lacrar fazendo o cancelamento de alguém por algum lapso ou erro cometido. Não apenas a letra, a faixa como um todo é um arregaço. A melhor do disco!

O tracklist segue com as tipicamente Primal Fear “Play a Song” e “This World on Fire” esta última com uma avalanche de riffs que só ouvindo pra crer. “Their Gods Have Failed” segue a linha mais longa e épica com faixas mais elaboradas como por exemplo “Fighting the Darkness”, “When Death Comes Knocking” ou “We Walk without Fear”. O ponto mais marcante dessa faixa é, como não poderia deixar de ser, o refrão daqueles bem grudentos e de fácil assimilação.

A pesadíssima “Steelmelter” abre alas para “Raged by Pain” a mais rápida faixa do Primal Fear em anos, a própria duração de pouco mais de 3 minutos já entrega isso. E como não poderia faltar há a mega balada “Forever” feita com a classe de sempre, e a melódica “Fearless” fecha com chave de ouro este grande trabalho que intimamos você caro leitor, a ouvi-lo sem nenhuma moderação.

Em um cenário tão vasto de bons lançamentos, em especial de bandas com esse jeitão, não é tão fácil assim separar o joio do trigo; aqui a mais pura adrenalina é despejada sem dó nem piedade no ouvido de quem ousar dar o play neste grandioso trabalho. Que bom vê-los sedentos por Metal de verdade e sem firulas excessivas a essa altura de sua carreira. Que mais bandas por aí façam isso, por favor!

Mauro Antunes






segunda-feira, 4 de setembro de 2023

XFEARS - REASONS FOR CHANGE (2023)

 


XFEARS
REASONS FOR CHANGE
Metal Relics - Nacional

Não é novidade pra ninguém que este redator que vos escreve não é um grande apreciador do denominado PROG METAL. O simples uso do termo já me causa uma certa ojeriza, muito pelo que bandas como Dream Theater acabaram por proporcionar a este pobre ouvinte: notas e notas e notas, quebradeiras desconexas e um malabarismo musical que cansava nos primeiros 30 segundos de audição. No entanto, muitas bandas vem quebrando esse paradigma estabelecido por mim por apresentarem trabalhos voltados ao feeling e à musicalidade, colocando sempre a música em primeiro lugar. E a XFEARS, formada em 2002, é uma dessa bandas! Uma mistura perfeita entre o metal tradicional, o já citado prog metal, mas com pitadas de thrash metal em alguns momentos, faz de REASONS FOR CHANGE, segundo álbum do trabalho do grupo, lançado pela Metal Relics, um álbum fácil de ouvir, que cativa desde os primeiros momentos de sua audição. 

Gabriel Carvalho (voz e teclados), Nando Cavaccini (guitarras), Murilo Barim (baixo) e Douglas Polents (bateria), apresentam um trabalho coeso, maduro e muito bem estruturado, tanto tecnicamente quanto qualificado. Gabriel possui um timbre que foge um pouco dos vocalistas do estilo, pois traz melodia e agressividade ao mesmo tempo em sua voz, navegando facilmente pelos dois extremos. Além disso, oferece linhas de teclados que não cansam o ouvinte, mostrando classe e bom gosto. A guitarra de Nando, por sua vez, se mostra pesada, com rifs inspirados pelo que de melhor o heavy metal nos proporciona. Já a cozinha composta por Mutilo e Douglas, criam bases muito interessantes, por vezes intrincadas, mas nem por isso, deixar de prestar serviço à musicalidade da banda. Muito bem produzido, fato que deve ser creditado ao vocalista Gabriel, o álbum foi mixado e masterizado por Benhur Lima (ex-baixista da Hibria). Sonoridade na medida, sem exageros, mostrando uma banda que vem se firmando como uma das grandes representantes do estilo, liberando espaço para criatividade e versatilidade, algo bastante raro hoje em dia. 

"Overture" é muito mais do que uma introdução, pois de cara mostra toda a técnica e dinâmica da banda, com passagens climáticas e pesadas num casamento equilibrado entre guitarra e teclado, deixando baixo e bateria livres para desfilar suas estruturas bem trabalhadas. Logo na sequência, "When We Die", ótima composição, que navega com facilidade pelo metal e pelo prog, dosando de forma consistente essas duas vertentes. A voz de Gabriel, com seu timbre característico, se encaixa com consistência, agregando um diferencial à banda, ainda que isso não seja o maior destaque do trabalho, uma vez que, como citado anteriormente, a coesão e entrosamento do grupo se mostram bastante evidentes. Fato esse que vem a se firmar ainda mais em "Don't Wait", onde Nando cria linhas de guitarras muito bonitas, e a banda cria uma singela aproximação com a música pop (mas não pense na música pop que toca nas rádios hoje em dia), o que em outros tempo, levaria um clipe dessa faixa a ser exibido na programação da MTV (vejam  bem, na "falecida" MTV). O que não é demérito algum, ou esqueceram que "Symphony of Destruction", "Enter Sandman", "Heaven's a Lie", entre outras faziam parte da grade b=normal da extinta emissora?

No entanto, "Fix it All" traz um dose extra de peso, num andamento mais cadenciado e carregado de energia e emoção. A interpretação de Gabriel ganha ares de sentimentos mais intensos, onde as passagens mais limpas trazem à tona a musicalidade do excelente cantor. "Redemption", é uma bela balada, e se na faixa anterior tínhamos sentimento e energia, aqui essa dupla aparece em maior dose, carregando em sua melodia um clima de suavidade paz. Que bela composição! "Changes", em seguida, põe o metal tradicional em sua essência, ainda que o prog metal se faça presente, muito pelas linhas de teclado de Gabriel. Há momentos em que a guitarra se aproxima de riffs thrash, mas nada que soe forçado ou deslocado dentro da criatividade do grupo. O peso continua dominando o cenário em "Reason to Stay", faixa que antecede "The Show Must Go On", uma das mais belas músicas compostas pelo Queen. Fiquei curioso, muito pela voz de Gabriel ser muito diferente da voz de Freddie Mercury. Mas o resultado final ficou muito bom, pois a banda soube imprimir sua personalidade na faixa, dando uma cara toda própria. Parabéns ao grupo pela escolha e pela excelente execução! Pra fechar o álbum, "Peace Within", a mais longa faixa do trabalho, com seus mais de 7 minutos, onde o grupo desfila suas mais diversas influências, tendo por base o peso e a melodia.

REASONS FOR CHANGE é um trabalho maduro, coeso e verdadeiro. Um álbum que servirá para que a XFEARS venha a consolidar sua posição dentro do concorrido cenário nacional, de forma firme e consistente. Qualidade e técnica o grupo possui de sobra. Só falta os fãs de heavy metal no Brasil (e no mundo) dispensarem maior atenção à banda! 

Sergiomar Menezes