segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

TAILGUNNER - MIDNIGHT BLITZ (2026)



TAILGUNNER
MIDNIGHT BLITZ 
Napalm Records - Importado

Um lugar ao qual eu sempre gosto de voltar é o power metal. Eu sei, o gênero ficou saturado no final dos anos 90 e até a metade dos anos 2000. Mas ainda amo ouvir álbuns do Gamma Ray, Blind Guardian, Stratovarius e Helloween — são “lugares” seguros e nostálgicos.

É justamente nesse tom, de lembrar como é ouvir músicas rápidas, com bumbos duplos e melodias memoráveis, que o Tailgunner chega com Midnight Blitz. O segundo trabalho de estúdio dos ingleses representa um degrau acima em relação à estreia em Guns for Hire, de 2023. Eles incorporam um lado claramente germânico ao seu som — é como se Stained Class (Judas Priest) se encontrasse com Walls of Jericho (Helloween) e ainda tivessem tomado uma cerveja com o New Order World (Gamma Ray).

A faixa-título abre o disco com clareza de propósito: sirenes anunciam o ataque, guitarras gêmeas cortam o ar e a base rítmica entrega energia e precisão. É heavy metal direto ao ponto, feito para balançar a cabeça. O clima clássico segue com “Tears In Rain”, de andamento mais reduzido, mas com um horizonte melódico vasto e um refrão emotivo, extremamente “chiclete”. A dobradinha de abertura revela um Tailgunner que transita com naturalidade entre o heavy metal tradicional e o power metal, sempre sem exageros ou açúcar em excesso.

O álbum, aliás, se sustenta justamente por essa variedade bem dosada. Destaque para “Follow Me In Death”, que equilibra velocidade e melodia com naturalidade, enquanto “Dead Until Dark” mantém o espírito old school aceso, evocando o lado mais sombrio do metal oitentista. Já “Barren Lands And Seas Of Red”, com mais de seis minutos, revela ambições maiores — os riffs que abrem a faixa beiram o absurdo e conduzem uma narrativa pesada, trágica e quase desesperadora.

Liricamente, Midnight Blitz também se mostra mais profundo do que pode parecer à primeira audição. O Tailgunner trabalha temas como guerra, morte e destino não como discurso político, mas como “cliches” clássicos do heavy metal. A guerra surge ora como força mitológica inevitável, ora como inferno absoluto, despido de heroísmo. A morte, por sua vez, é tratada menos como fim e mais como passagem, continuidade ou aceitação. Há um fio existencial que atravessa o álbum, o que contribui para um disco tematicamente coeso, sombrio e épico, sem soar cansativo.

Voltando ao tracklist, após tantas músicas cheias de potência, com o clima no alto, chega o esperado momento de “risco”. Baladas costumam dividir opiniões, mas o Tailgunner acerta na mosca com “War in Heaven” ao apostar mais na interpretação do que em fórmulas óbvias. Craig Cairns entrega uma de suas melhores performances vocais no álbum, provando que é muito mais do que um vocalista de agudos rasgados e refrãos épicos.

Após esse momento de respiro, para quem prefere velocidade e impacto imediato, “Blood Sacrifice” surge logo em seguida como um soco no estômago, recolocando tudo nos trilhos com riffs afiados e uma energia quase punk em sua urgência. “Night Raids” e “Eye Of The Storm” mantêm o ritmo elevado, com esta última flertando levemente com uma sonoridade mais moderna, o que pode dividir opiniões.

O encerramento com “Eulogy” amarra tudo de forma grandiosa. A faixa alterna momentos épicos, passagens instrumentais elaboradas e explosões de speed metal, funcionando como um manifesto final de tudo o que foi apresentado ao longo de Midnight Blitz. É o som de uma banda jovem, ambiciosa e claramente faminta. Não há aqui a postura de quem pede licença — o Tailgunner soa como quem quer ter seu lugar no mundo do heavy metal.

William Ribas



VIPER - TEM PARA TODO MUNDO (2025)

 


VIPER
TEM PARA TODO MUNDO
Wikimetal - Nacional

Em 1996, acho que podemos assim dizer, o VIPER vivia uma crise de identidade. Após a saída de Andre Matos e de dois clássicos do metal - a saber, "Soldiers of Sunrise" (1987) e "Theatre os Fate" (1989), Pit Passarel, baixista e principal compositor da banda, assumiu os vocais e banda meteu o pé em composições mais intensas e pesadas e lançou o ótimo "Evolution" (1992), um álbum mais direto e sem aqueles vocais mais agudos e melódicos. Em seguida, veio "Coma Rage" (1994), ainda mais direto, com raízes até mesmo no punk rock. Não foi um grande sucesso, mas ainda assim, trazia composições interessantes, mesmo que longe daquele Viper que ficamos acostumados a ouvir. E eis que em 96, surge "Tem Pra Todo Mundo", cantado em português, com uma pegada mais pop rock e que foi completamente ignorado, tanto pelos fãs, como pelo próprio mercado, vez que a gravadora da banda à época, Castle, faliu causando inclusive, uma parada nas atividades da banda. Muita coisa aconteceu de lá pra cá, como quem acompanha a trajetória do grupo já sabe.

Mas em 2025, a banda, ao completar 40 anos, decidiu resgatar as músicas e com o auxílio da tecnologia, usou a ferramenta de inteligência artificial MOISES para recuperar os vocais originais de Pit, além de partes instrumentais gravadas pelo guitarrista Yves Passarell e pelo baterista Renato Graccia. Felipe gravou todas as guitarras, dando à obra um caráter bem diferente – mais pesado e moderno em relação à original. Sendo assim, TEM PARA TODO MUNDO (com uma leve mudança no título), volta ao mercado através da Wikimetal. Mas se em 1996, a banda sofreu pela má divulgação, agora não foi muito diferente pois eu próprio fui ficar sabendo desse relançamento apenas hoje, mais precisamente dia 31 de janeiro de 2026.

"Dinheiro" abre o álbum com uma pegada rock n' roll, com uma melodia bem bacana. E sejamos sinceros, apesar de não ser Heavy Metal, Pit sempre foi um compositor de mão cheia, independente do estilo. E já percebemos que as guitarras adicionadas aqui fazem a diferença nesta nova edição, pois agregam mais "peso" (se você leu até aqui, entende o que estou dizendo). Na sequência, "Sábado", segue a mesma linha, com a mesma pegada rocker da faixa anterior. E aqui uma curiosidade: quando entrevistei o baterista Renato Graccia, que foi sincero e disse que desde o início foi contrário a essa mudança de direcionamento, chegamos a conclusão que se esse trabalho fosse lançado com o nome "Víbora", talvez tivesse sido recebido de forma diferente. "8 de abril", data em que a banda nasceu, é o título da próxima faixa. Com uma letra intimista e honesta, a composição se fosse um pouco mais pesada, poderia estar em "Coma Rage". A música já esteve presente na coletânea "Everybody, Everybody - The Best of Viper", lançada em 1999, mas na versão que foi gravada originalmente. Aqui, tem uma roupagem mais robusta e interessante. Cantada em inglês, "Not Ready to Get Up", também poderia estar em "Coma Rage", pois tem aquela vibração, ainda que sem o peso e "raiva" daquele trabalho. Por sua vez, "Crime na Cidade", apesar da boa ideia, se perde um pouco, fugindo daquela pegada mais rocker que vinha até aqui, aproximando-se de forma perigosa, daquele pop rock que infestava as "rádios rock" e a MTV à época.

"Quinze Anos", mais acelerada é interessante, mas comum, sem acrescentar muito ao álbum. Por sua vez, "The One You Need" tem um quê de Legião Urbana. Sim, Legião Urbana, a banda de Renato Russo e Dado Villa Lobos serviu de influência para esse trabalho, tanto que na versão original havia um cover para "Mais do Mesmo", algo que também contrariou o baterista Renato. Talvez por isso que Mayrton Bahia tenha sido escolhido para produzir o disco em 1996. Dessa vez, tal tarefa ficou sob a responsabilidade de Val Santos (que também tocou na banda e brother de longa data do grupo) e Felipe Machado, oq ue ajudou a melhorar o que temos aqui. "Alvo" é outro momento que também não acrescenta muito, e "Na Cara do Gol" começa com um samba e a gente pensa: agora fudeu! Mas, um rockão acelerado dissipa esse pensamento num dos bons momentos do trabalho. Se "Lucinha Bordon" era uma música inexpressiva em 96, aqui ela continua sua saga, apesar das guitarras e da produção, a faixa não empolga. Assim como "Um Dia", que também resgata aquela atmosfera "legiônica" desnecessária. O álbum fecha com "Tem Obrigado Para Todo Mundo", que é, literalmente, uma mensagem da banda gravada meio que na zueira no estúdio, e mesmo que não tenha nada musical, é melhor do que o cover já citado da Legião Urbana.

Confesso que nunca dei bola pra "Tem Pra todo Mundo", ainda mais em 1996. Ouvindo essa nova versão intitulada TEM PARA TODO MUNDO, percebo que existiam boas ideias no trabalho, mas não mudo minha opinião. Tivesse sido lançado como uma espécie de projeto paralelo, não soaria tão "diferente" assim. o VIPER sempre foi um dos baluartes do metal brasileiro. Obviamente, que a banda (e qualquer outra banda no mundo), tinha e tem o direito de gravar aquilo que quer sem dar satisfação pra ninguém. Mas a guinada aqui foi muito "radical".  álbum não é indicado pra fã devoto do estilo, mas pode agradar aqueles que apreciam um bom disco de rock, mas que entendam a proposta do grupo naquele momento da carreira. Se eu gostei do resultado? Posso dizer que ouvindo hoje, com essa nova roupagem, o saldo é mais positivo do que negativo...

Sergiomar Menezes